É amplamente reconhecido que a forma mais eficaz de garantir a satisfação e o orgulho dos pais, especialmente no caso das mulheres, é através de um casamento vantajoso, preferencialmente com um noivo rico e de alto status. Sempre considerei essa perspetiva como uma estupidez flagrante.
E se as mulheres simplesmente não desejam casar-se? Eu, pessoalmente, recuso-me a ser tratada como propriedade de alguém e anseio por liberdade. Será que, em algum momento futuro, as coisas mudarão? Tenho imaginado um mundo onde as mulheres tornem-se igualmente importantes aos homens, em vez de sermos meras "bonecas reprodutoras", mas temo que isso não seja possível em pleno 1821, nem num futuro próximo. E além disso se não dermos à luz um herdeiro homem, somos tratados como insignificantes.
Estou bem ciente disso, pois o meu pai, Clark Von Rozen, o Duque de Harlow, sempre culpou minha mãe, Amelia-Rose, por não ter conseguido gerar um menino. Em vez disso, ela deu à luz a mim e à minha irmã, Nicola. Para ele, a falha é inteiramente da minha mãe, cujo "ventre está estragado", palavras dele. A verdade é que ele não quer que o seu ducado seja herdado por um primo distante. Agora, a única forma que ele vê de obter algum sucesso é casando as suas filhas de maneira vantajosa, mas nem isso está a seu favor.
Nicolau Von Rozen, a primogênita, aos 19 anos, envolveu-se com um homem que a seduziu e a deixou com a reputação completamente arruinada. Desde então, ela não preocupa-se mais com o casamento, pois nenhum homem deseja uma noiva manchada. Essa situação tem deixado os meus pais à beira da loucura, depositando todas as suas expectativas matrimoniais em mim. Era de se esperar que a "tragédia" que aconteceu com ela tivesse algum impacto sobre mim, mas estava completamente enganada.
Embora eu deseje um dia experimentar o amor, além de ser péssima em lidar com o sexo oposto, nunca senti interesse genuíno em alguém. Talvez o amor simplesmente não exista. Recuso-me a entrar em um casamento com alguém que mal conheço e, nunca tive o menor interesse em conhecer os homens que tentavam cortejar-me. Isso levou à minha recusa de cinco propostas de casamento. Sim, cinco.
A minha vontade de tornar-me uma solteirona é cada vez mais forte, pois isso me aproxima da liberdade que tanto desejo. Passar os meus dias imersa em leituras de fantasia sempre pareceu muito mais tentador do que envolver-me com homens, o completo oposto da minha irmã.
Fui interrompida dos meus pensamentos matrimoniais por uma batida na porta. Saltei do parapeito da janela do meu quarto e dirigi-me à porta para a abrir. Era Beatrice, a criada da Casa Harlow, e a pessoa mais próxima que tenho de uma amiga. Ela é linda, com pele bronzeada e cabelos ruivos deslumbrantes, embora, na maior parte do tempo, eles estejam escondidos sob uma touca. Ela sorriu e trazia consigo um folheto de mexericos.
—Todos os criados estão a comentar sobre isto — disse ela, entrando e entregando-me o papel. —Lê em voz alta!
—Prezados leitores, foi com grande surpresa que testemunhas oculares avistaram a bela Nicola Von Rozen em companhia de um misterioso homem, cuja aparência indica claramente ser um estrangeiro. Essa notícia, sem dúvida, abalou os círculos mais respeitáveis da sociedade, já que a família Von Rozen, como todos sabem, tem enfrentado grandes dificuldades para casar suas filhas." A mamã deve estar furiosa.
—Furiosa é pouco. Suas Graças estiveram trancadas no escritório durante toda a manhã. —respondeu Beatrice.
—E a Nicola sabe disso? Tenho a sensação de que ela vai se dar mal — comentei.
—Ninguém a viu desde ontem. A Sra. Jones disse-me que ela não estava na cama esta manhã.
—Ela sempre se mete em problemas, a todo o momento — revirei os olhos.
Antes que pudéssemos retomar nossa conversa, ouvimos uma outra batida na porta. Pedi que entrasse e lá estava Myers, nosso mordomo, elegantemente vestido como sempre. No entanto, vê-lo parado à porta do meu quarto era algo incomum, e senti que algo estava errado.
—Peço desculpas por interromper a menina, mas a duquesa exige a sua presença no escritório — disse ele, claramente nervoso. Eu precisava saber o que estava a acontecer nesta casa, Bea e eu trocamos olhares de confusão e curiosidade. Só restava-me extrair alguma informação dele.
—Senhor Myers, por favor, diga-me o que está a acontecer. A mamã está bem?"
—Não sei dizer, menina. Fui apenas instruído a avisá-la disso com urgência—suspirou. —Com sua licença — murmurou enquanto fechava novamente a porta do quarto.
Imediatamente, começamos a discutir a situação.
—Achas que tem algo a ver com o artigo sobre a Nicola? — perguntei.
—Não sei, pode ser...— ela colocou o seu dedo no queixo —O que torna tudo ainda mais estranho é que não tens culpa dos escândalos dela...
—De qualquer forma, tenho que ir. Ouviste o que o Myers disse: 'com urgência', Conto-te tudo depois.
Abraçamo-nos e, em seguida, desci as escadas até o andar inferior. Precisava enfrentar minha mãe, que havia passado toda a manhã no escritório com meu pai. Eles raramente comunicam-se, o que tornava a situação ainda mais assustadora.
A sala estava silenciosa quando entrei no escritório. Respirei fundo. A minha mãe estava sentada elegantemente na poltrona do meu pai, tinha uma expressão séria no rosto. Uma pitada de preocupação caiu no meu estômago, deixando o meu coração apertado de ansiedade.
—Mamã, o que está a acontecer? Por que mandou me chamar tão urgentemente?— perguntei, tentando controlar as emoções que borbulhavam dentro de mim.
Com um suspiro profundo,a minha mãe respondeu, mas o seu tom carregava tristeza.
—Electra, meu anjo, há um assunto delicado que precisa ser discutido. Sabes que rejeitaste todos os pedidos de casamento até agora, e isso tem causado agitação nos círculos sociais. A tua irmã mais velha também não se casou, para não falar nos escândalos diários e isso está a afetar a nossa reputação.
Cruzei os braços, mantendo o meu olhar fixo na duquesa. Eu já havia expressado os meus anseios acerca do casamento com ela, mas parece que mesmo assim nada adiantou.
—Mãe, sabes que não quero me casar. Não desejo estar presa a um homem que mal conheço, apenas para manter as aparências. Quero ser livre para seguir meu próprio caminho.
Senti uma dor no peito ao ver a tristeza nos olhos da minha mãe. Ela levantou-se e aproximou-se de mim, colocando as suas mãos delicadas nos meus ombros
—Querida, entendo perfeitamente a tua vontade de ser independente, eu mesma já fui assim, mas há responsabilidades maiores em jogo, o nome da nossa família e a nossa posição social dependem disso. Eu compreendo que rejeitar todos os pedidos de casamento seja a tua maneira de expressar insatisfação, mas desta vez não podemos recusar.
Lágrimas começaram a formar-se nos meus olhos, enquanto lutava para encontrar as palavras certas.
—Mãe, como podes me pedir para sacrificar a minha felicidade? Não quero passar minha vida ao lado de alguém que não amo. Seria uma prisão para mim.
Ao ouvir meu apelo, a minha mãe tentou me confortar.
—Acredita que, mesmo que não haja amor inicialmente, podes encontrar tua própria felicidade com o tempo, anjo.
Respirei fundo, tentando encontrar coragem para continuar. Os meus olhos encontraram os da minha mãe, e eu sabia que precisava ser firme.
—Não posso fazer isso, mãe. Não posso sacrificar minha própria felicidade. Imploro, por favor, entenda.
A raiva se misturou à tristeza no rosto da minha mãe enquanto ela respondia com uma voz firme.
—Electra Von Rozen, estás a ser teimosa e egoísta! Não podes colocar a tua felicidade acima dos interesses da família e da nossa posição social. Exijo que aceites esse casamento e faças o que é necessário para garantir a nossa reputação!
Lágrimas escorreram agora livremente pelo meu rosto, a indignação estava a ferver dentro de mim.
—E tu, mãe? Não te importas com minha felicidade? Estás disposta a forçar-me a uma vida infeliz como a tua, apenas para manter as aparências? Eu pensei que me compreendesses, e que me apoiasses, mas afinal és como o pai.
A raiva apossou-se da sua expressão enquanto ela me respondia com fúria contida.
—Não ouses questionar minha dedicação à nossa família! Ages como uma criança mimada e irresponsável. Sabes bem que quem manda é o teu pai, se resistires à nossa decisão seremos obrigados a tomar medidas drásticas. Está tudo acertado com o teu noivo, e acabou a conversa.
Engoli o nó que formava-se na minha garganta, sabendo que esta batalha ainda estava longe de acabar. As minhas mãos tremiam de raiva e tristeza, saí do escritório a correr, queria atirar-me para a minha cama e fingir que a minha vida não estava prestes a acabar.
E lá estava eu, deitada, com o coração apertado, com o rosto cheio de lágrimas secas de tanto chorar, quando Beatrice entra de rompante pelo meu quarto adentro, toda animada.
—Electra! Ouvi um burburinho entre os criados, e parece que as vossas graças têm planos para o teu casamento!
Eu suspirei, sentei-me na cama e apertei as mãos com força, estava mais calma mas ouvir Beatrice mencionar apenas intensificou a sensação de sufocamento.
—Sim, Bea. Eles decidiram que devo me casar com um homem que não conheço. Parece que desta vez não tenho mesmo como escapar.
—Mas, Electra, poderás comandar o teu próprio lar! É um sonho tornando realidade! Gostaria de estar no teu lugar...
Sacudi a cabeça, perplexa com a perspetiva de Beatrice. Ela não entendia como eu me sentia. Para ela, casar com um homem era o ápice do sucesso. Mas para mim, era uma prisão.
—Bea, não entendes. Eu não quero ser uma propriedade de alguém, eu só queria ser livre, seguir o meu próprio caminho, sabes disso melhor que ninguém.
—Mas, El , não tens mesmo curiosidade de como será ser casada? Soube que ele é atraente, parece que é um Marquês, foi a sra. Jones que me contou, ele esteve aqui esta manhã, gostava de o ter visto com os meus próprios olhos...
Suspirei Beatrice é a melhor amiga que eu poderia ter, mas as nossas visões de mundo são tão diferentes que às vezes parece que vivemos em universos paralelos, e de fato, sempre esqueço-me que ela é uma criada e eu a filha de um Duque.
— Eu sei que para ti isto de casamento é um sonho, mas, as nossas realidades são demasiado diferentes para compreenderes o que sinto, se eu pudesse, juro, trocava de lugar contigo.
— Não quererias trocar de lugar comigo... — suspira com tristeza — Mas enfim, irei estar aqui para ti de qualquer das formas, prometes que me levas contigo quando casares? Por favor?
— Bea, claro que te levo comigo, és a minha criada pessoal, isso ninguém me pode tirar.
Corri para a abraçar e sorri com gratidão, sabendo que, apesar de nossas perspectivas diferentes, Beatrice é o meu porto seguro, com ela ao meu lado, eu sei que posso encontrar forças para lidar com isto tudo da melhor forma.
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